Carta aberta de uma sobrevivente ao mundo hétero
À partir do momento em que me vi no armário, eu saí. Quer dizer… Vivi muito tempo nele, claro: dos meus 14 anos, quase 15, quando dei o meu primeiro beijo, até os 20 ou quase 20. Na verdade antes disso também estive no armário… Antes de beijar, quando minhas fantasias se resumiam a contos de fadas que eu nunca sentia vontade que de fato se realizassem, quando sentia um certo descontentamento, desespero, uma vontade de gritar que parassem de ficar no meu pé para falar de meninos e que eles parassem, por um segundo, de fazer o que hoje em dia eu entendo como assédio: insistir em ter minha atenção e insistir em ficar comigo até tirar toda a minha energia. Lembro que quando eu era bem novinha pedi para os meus pais para trocar de turno na escola, para poder me livrar de um menino e senti um alívio muito grande quando meu pai foi transferido no trabalho e mudamos de cidade. Lembro também de um garoto no fundamental que falava frases de sexo para mim, frases sujas que, mesmo que eu não entendesse bem o sentido, fizeram eu me sentir violada… Uma vez pesquisei na internet o que ele queria dizer com determinada palavra e me deparei com um site pornô. Hoje em dia percebo que, provavelmente, aquele garoto foi vítima de acesso precoce à pornografia e o que ele fazia comigo era apenas um reflexo da socialização que ele aprendeu a ter e da maneira como ele aprendeu a enxergar as mulheres. Eu me sentia tão mal pelas investidas dos garotos que não gostava que eles nem ao menos encostassem em mim, eu sentia nojo. Me pergunto se no fundo minhas amigas e irmã realmente não percebiam que havia algo de diferente na maneira como aquela garotinha que nem mesmo entendia o porquê era assim e estava tão brava com aqueles meninos, não se atraia por eles.
Se eu fosse brincar sobre o assunto diria que eu era ou feminista por natureza ou sapatão por natureza, sabemos que um dos dois não é possível, sabemos que um dos dois você aprende a ser, você lê sobre o assunto e encara essa luta política, logo, eu era uma menina lésbica sem saber. Me pergunto se a heterossexualidade é tão compulsória que vendou os olhos de quem convivia comigo para identificar em mim uma garota sapatão… Quando dei o meu primeiro beijo, (que foi tarde demais para a meta sexualizadas de garotas, tarde em relação às minhas amigas), eu sentia que precisava fazer aquilo. Na verdade eu só queria me sentir normal e desejada, queria saber qual a sensação de beijar e entender o porquê isso era algo tão importante para todas as outras garotas que eu convivia… Mas mesmo assim, adiei o beijo e o “romance”, talvez por um sutil e subconsciente desinteresse de beijar aquelas bocas masculinas. Me escondendo em livros, o que, de alguma forma, me ajudou a longo prazo. O fato é que durante esse período de descobertas e sentimentos, que é a adolescência e o início da juventude, eu quase não sentia nada, porque eu estava lá: no armário, adormecida. Entorpecida por um mundo heterossexual que me sufocava quase que até a exaustão, envolvida nessa atuação quase perfeita — mais pra mim mesma do que para os outros — de “Eu te amo” vazios e trocas de olhares que quase sempre não levavam à nada. Minha realidade era tão envolta de uma fachada de concreto heterossexual, que, na minha infância, eu nem sabia que existia a possibilidade de amar mulheres. Eu não tinha referências e ser a primeira pessoa na família a ser assumidamente homossexual não é só triste (quando penso nas vidas que não foram vividas) mas também desafiador… É difícil viver um mundo em que os parâmetros são suas próprias escolhas como é o mundo de ser lésbica, sem receitas prontas como a receita heterossexual de formar, casar e ter filhos. Receita que as pessoas geralmente seguem ou perdem a vida tentando seguir, sem se questionar muito.
De qualquer forma, isso não foi sobre escolha, esses anos, na dormência do mundo hétero… Foi sobre sobrevivência. Se existe algo que posso tirar de proveito no meu tempo vivendo no mundo hétero, mais analisando-o do que de fato participando dele, é que as pessoas nesse mundo não tem absolutamente nenhuma noção do quão cômoda é a vida delas, não percebem o quanto a quantidade exagerada de referenciais que elas tem moldam as suas formas de pensar e agir no mundo, o tempo todo. Percebi que elas tendem a perguntar umas as outras, indignadas, “Porque ele ficou tanto tempo no armário? Por que ela se casou e teve filhos? Como ela teve coragem de mentir para o marido?” Como se nós fossemos autorizados socialmente a assumir para nós mesmos de quem nós gostamos… Como se o armário não fosse uma mentira até e, principalmente, para nós mesmos. Por isso afirmo que quando me percebi no armário, eu sai. Quando percebi que me lembrava perfeitamente do rostinho da Rafinha, minha melhor amiga aos 4 anos, mas não me lembrava em nada do rosto do Orlandinho, o garotinho que família e amigos brincavam sobre ser meu namorado, quando me lembrei das admirações secretas que se transformavam em tentativas de amizade ou rivalidade rápido demais para que eu pudesse perceber… Quando percebi sobre os toques sutis e a falta de forças para resistir a experiência de beijar uma garota na adolescência e, depois disso, a necessidade crescente de arranjar um namorado, um homem para me validar… Quando me lembrei e refleti sobre os beijos em garotos de festinha, todos tão forçados, ruins… quando percebi tudo isso, saí do armário. No mesmo instante. Após me perceber ali não aguentei nenhum segundo a mais. Minha infância e juventude são hoje recortes de histórias que só agora posso entender e contar. Por isso percebo o quão é importante essa fase da formação humana, o quanto nós somos inteligentes e sensíveis ao meio.
Se for feita uma análise tendenciosa e superficial, meu pensamento parece se converter ao conservadorismo, no sentido em que ambos concordamos que crianças não deviam ser expostas à sexualidade. Ambos concordamos que falar de sexo, namoro e relações pessoais típicas de adultos não deviam ser superexpostas para crianças. Elas deviam ter uma noção básica de que essas relações existem, claro, deviam ter noção inclusive de que TODAS essas relações existem, inclusive às que lhes são negadas a existência, mas só. É assim, por meio dessa exposição da mídia, dos veículos de comunicação, das pessoas influentes e, inclusive, das supostas “feministas” liberais, que usam seus corpos como mercadoria sexualizada, que meninas são hipersexualizadas desde crianças e o resultado disso muitas vezes é abuso sexual infantil (pedofilia) e prostituição. Não entenda que estou falando que uma criança de 11 anos quis se relacionar com homens adultos, mas, essa criança foi treinada para achar que isso era algo possível e aceito para ela, o que de fato é, já que nossa sociedade normaliza a cultura do estupro, da pedofilia e do abuso infantil. Mas, o que os conservadores não entendem, quando acusam a comunidade GBT e/ou a comunidade lésbica de estar forçando uma exposição da vida sexual e sexualidade às crianças é que essa exposição já acontece. Mas é a sexualização heterossexual que temos acesso diariamente, esta é uma prova de que vivemos em uma sociedade de biopoder, em que todos os aspectos da vida humana em sociedade, inclusive o aspecto sexual, são controlados e legitimados pelo estado afim de promover a manutenção do sistema, que no caso é patriarcal e hétero compulsório. E aqui me refiro claramente à análise de Foucault em seu livro “História da sexualidade, volume I”¹. E, claro, a Monique Witting em “O pensamento hétero”, ponto de partida que me ajudara a entender o meu próprio lugar no mundo².
Mas não era somente sobre perceber a falta de atração por homens e a possibilidade de atração por mulheres, na verdade, mesmo depois de perceber que a minha questão com os homens não era atração sexual, eu ainda insistia em me relacionar com eles. Percebi que nós, mulheres lésbicas, continuamos sentindo algo pelos homens mesmo depois de ter constatado que não sentimos atração por eles.³ Acredito que seja por isso que tantas mulheres lésbicas têm dificuldade para se identificar como uma pessoa que sente tudo, menos algo por homens, de qualquer espécie. Eu percebi que mesmo que minha atração por eles não fosse sexual, eu ainda tinha muitos tipos de atração por homens, meu afeto era direcionado à eles, minha sensação de ego, de eu, de beleza, de validação… Era voltada para o que eles pensam sobre mim e é por isso que até hoje preciso me policiar para não superestimar os homens que, apesar de tudo que me despi para agradar à eles, sorriem para mim e me aprovam. Eu simplesmente não preciso da aprovação deles e preciso me lembrar disso todos os dias.
É difícil afirmar a sua própria existência quando essa existência é algo que nega ou, no mínimo, não se importa com o que fomos ensinadas desde sempre que era a coisa mais importante do mundo: os homens. Por isso, por exemplo, percebo que a experiência de ser lésbicas não poderia ser mais oposta à experiência de ser gay do que ela é… Os homens são ensinados à odiar as mulheres, a sentir-se naturalmente superior à elas. Homens não só podem sentir nojo de mulheres, como muitas vezes realmente têm. Eles aprendem isso por meio de outros homens ou por meio do sistema patriarcal que protege a todos eles e seguem a vida achando que é perfeitamente natural não consideram as palavras, pensamentos ou presença de mulheres, como válidas de atenção e admiração. Garotos gays apenas exacerbam esse valor, admiração e atração que sentem por homens… ter nojo de vaginas, no fundo, não é algo exclusivo a homens gays… E a exaltação do falo masculino é uma regra que, na minha adolescência, implicitamente vi ser compartilhada por todos os garotos, de todas as sexualidades… Quando me sentava em uma carteira com um pênis desenhado e todas as outras carteiras, livros e paredes da sala de aula tinham esse desenho, exaltado pelos mini homens que ali coexistem comigo, eu sabia: o falo era a ordem. Portanto amar mulheres era uma subversão que eu ainda não teria coragem de sustentar ou imaginar. A sensação da vivência gay, ainda que difícil, não é a mesma da sensação lésbica. Nós fomos ensinadas à doar todo o nosso tempo, atenção, beleza, caráter, dons e habilidades, para os homens. Fomos ensinadas que existir para eles era a ordem natural da vida, como questionar essa existência?
Quando me percebi nesse estado que, por um tempo eu chamei de bissexualidade, senti ódio, ódio do meu corpo, dos meus pensamentos. Ódio de tudo em mim que me lembrava ELES, ódio de tudo que fiz e deixei de fazer para agradar à eles, de todas as vezes que me intoxiquei por eles e nem estou falando de maneira totalmente metafórica… E você sabe… Não importa o quão conservadora você seja, se você é mulher e está lendo esse texto, você sabe que pelo menos 80% do que você é foi construído para agradar à eles e que se você fosse livre tudo seria diferente… Desde seu cabelo até a sua relação com a sua inteligência, independência e força. Você sabe que você já atuou um papel de fragilidade em um encontro, você sabe que você não é você mesma… Eu pensava que EU era a atriz, por ser lésbica, mas todas somos, todas atuamos em troca de validação masculina. Por isso, em algum ponto, quando não amamos os homens e quando nossos trabalhos não estão ligados ao lucro capitalista da feminilidade, nós arrancamos. Esse é um processo natural de libertar-se da masculinidade que atua nos nossos pensamentos e nos nossos corpos: arrancar. Arrancar de si a feminilidade, os falsos sentimentos que acreditamos ser próprios de nós mesmas, as ideias, criatividade e intelectualidade limitadas. Arrancamos de nossas peles todas as marcas, feridas e dores que sofremos para viver de acordo com eles… Com o que ouvimos eles sussurrar entre si, sobre o que gostam ou deixam de gostar no que eles entendem que sejam as mulheres. E nos reconstruímos, não só fazendo o exercício diário de viver segundo nossos próprios padrões, para além do que é esperado pelo mundo DELES sobre o que uma mulher deve ser, mas também, nos autoafirmando enquanto mulheres que não amam homens, mulheres que, apesar de viver em uma cultura que não ama mulheres, as amam, as priorizam e as valorizam.
¹ É possível encontrar em: https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/2940534/mod_resource/content/1/Hist%C3%B3ria-da-Sexualidade-1-A-Vontade-de-Saber.pdf — FOUCAULT, Michel: História da sexualidade, volume I — a vontade de saber.
² É possível encontrar em: https://we.riseup.net/assets/162603/Wittig,%20Monique%20O%20pensamento%20Hetero_pdf.pdf — WITTING, Monique: O pensamento hétero.
³ Para entender mais sobre o conceito que permeia todo o meu texto e pensamento acesse também (além de vários outros textos no medium da QG feminista, sobre o assunto)https://medium.com/qg-feminista/heterossexualidade-compuls%C3%B3ria-lesbofobia-e-resist%C3%AAncia-56915992bdd2
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O material publicado lá no instagram e aqui no medium é fruto do meu esforço e crescimento pessoal ao longo dos anos como estudante da graduação de história, na UFG, e pesquisadora de feminismo e lesbianidade. Vamos devagar, mas vamos sempre: Radicais desde a raiz! — Lara Marinho.